Hospital Parque Belém

Hospital Parque Belém
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Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil

domingo, 10 de junho de 2018

Hospital Parque Belém - Ocaso de um Gigante


     




    Há um ano o Hospital Parque Belém fechou suas portas e, passado todo este tempo, não foi encontrada uma solução que viabilizasse a volta de seu pleno funcionamento.
    Nesta postagem não abordaremos as causas que levaram a este desfecho nem tampouco buscaremos apontar responsabilidades, esta não é a razão deste trabalho.

    Vamos  mostrar um pouco da belíssima história que antecedeu a sua construção, alguns dos personagens nela envolvidos, e a saga pessoal e profissional de um dos mais ilustres médicos que por aqui atuou - Manuel José Pereira Filho.





Manuel José Pereira Filho – Médico e Cientista


      Nasceu aqui mesmo em Porto Alegre no dia 10 de fevereiro de 1888. Ainda muito jovem, ingressou na recém fundada Faculdade de Medicina de Porto Alegre – atual medicina da UFRGS – diplomando-se em 1910.


Este prédio ficava na Rua Gal. Vitorino quase na esquina com a Annes Dias, bem próximo da Santa Casa de Misericórdia. A faculdade de Medicina passou a ocupá-lo a partir de 1900 e dele saiu para o prédio da Sarmento leite em 1924. 






       Em 1913 Pereira Filho matriculou-se no Instituto Oswaldo Cruz-RJ, onde cursou a especialização em Microbiologia e Zoologia Médica. Certamente sua inspiração para montar seu instituto veio do contato com o Instituto Oswaldo Cruz e seus ilustres professores.

Nesta imagem da turma de 1913 do Instituto Oswaldo Cruz, Pereira Filho aparece indicado pela seta

























Na oportunidade foi aluno do próprio Oswaldo Cruz, de Carlos Chagas e Belisário Penna, entre outros grandes cientistas que atuavam no Instituto naquela época.


O Instituto Pereira Filho em Porto Alegre

       Retorna para Porto Alegre e já em 1914 inicia a construção de um edifício na esquina da Rua Voluntários da Pátria com a Pinto Bandeira, no qual instalaria seu próprio instituto.
As fotos maiores mostram o edifício onde funcionou o Instituto Pereira Filho a partir de 1916. O prédio foi preservado em sua arquitetura original e a alguns passados, foi restaurado. No andar térreo a exemplo do que sempre ocorreu, funcionam estabelecimentos comerciais. O Instituto ocupava os andares superiores.  Na imagem menor, Manuel José Pereira Filho aparece em seu gabinete de trabalho no andar superior do Instituto. Pela janela, se observa a parte mais alta (tipo lanternim) do antigo Cine-Teatro Coliseu que ficava situado na calçada oposta, em diagonal ao Instituto



       Além da produção industrial de soros, vacinas e análises microbiológicas, o então denominado “Instituto Pereira Filho” transformou-se em uma verdadeira escola de medicina e num estabelecimento que prestava serviços para várias outras instituições, principalmente para a Santa Casa de Misericórdia, da qual jamais cobrou um centavo sequer pelos serviços. 

   Em seu instituto, dezenas de alunos, egressos da Medicina e também dos cursos de Farmácia e Odontologia, realizavam suas Teses de Doutoramento.
      O Dr. Julio Rosa Teixeira, formado em 1931 pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, defendeu a tese "Novas Aplicações do Antivírus de Besredka. A pesquisa focou um tema médico de grande relevância para a época pois Besredka recém havia comunicado  suas descobertas à comunidade científica. O único local existente no RGS onde este tipo de trabalho poderia ser realizado, era o Instituto Pereira Filho






  Os exames para verificação da qualidade da água do Jacuí, Sinos, Caí, Gravataí e do próprio Guaíba eram feitos no Instituto para determinar os melhores pontos para captação pelas Companhias Hidráulicas.

Os laboratórios do Instituto Pereira Filho eram os mais completos do Rio Grande do Sul e nada deviam aos existentes em outros centros . Um orgulho para a cidade e o estado.


Liquor com meningite (campo E)  Brucella abortus bovis (campo D)
Também foi autor de várias descobertas científicas de grande relevância que o transformaram  num cientista respeitado não somente no Brasil, mas também na comunidade científica internacional. Entre seus inúmeros trabalhos,  podemos citar a pesquisa sobre a febre ondulante devido a Brucella abortus bovis, bem como o relato do primeiro caso de Meningite cerebro espinhal  identificado em Porto Alegre.

     Tal foi a importância e a repercussão das pesquisas  do Instituto, que Getulio Vargas, através do Decreto Federal nº 22.486 de 22 de fevereiro de 1933, considerou-o de utilidade pública



Entre as diversas autoridades que visitaram o Instituto Pereira Filho, destaca-se a de Getulio Vargas quando Presidente do Estado em 1930. Impressionado com a magnitude e a qualidade do instituto, deixa uma mensagem: "Deixo consignado o meu sentimento de admiração como brasileiro e de orgulho como rio-grandense".
Em 1951 recebe, e aceita, um convite de Getulio Vargas  para assumir a direção do Serviço Nacional de Tuberculose. Sua gestão dinamizou o Serviço dando novas diretrizes no combate à doença.


    Esteve sempre ligado ao ensino médico tanto que em 1932 foi nomeado Professor Catedrático de Microbiologia da Faculdade de Medicina de Porto Alegre.
      O combate a Tuberculose sempre foi uma de suas maiores atenções tanto que com seu decisivo apoio como diretor do Serviço Nacional de Tuberculose, foi construído um pavilhão dentro do Complexo da Santa Casa, especialmente para o tratamento de doenças pulmonares. Este pavilhão, inaugurado em 1965 - seis anos após seu falecimento - é hoje um dos maiores centros de transplantes e tratamento para doenças pulmonares da América Latina – O Pavilhão Pereira Filho.

O Pavilhão Pereira Filho no Complexo Hospitalar
da Santa Casa de Porto Alegre
Visita ao então Governador Ernesto
Dornelles quando de sua nomeação
como Diretor do Serviço Nacional
de Tuberculose em  1951



O Hospital Sanatório Belém

     As primeiras quatro décadas do Século XX foram marcadas pelo avanço da mortalidade por Tuberculose no Brasil. Nas grandes cidades, 10% dos óbitos eram causados pela doença. Raras eram as famílias que não tinham algum de seus membros afetados pela doença.

O proprietário do Coliseu era Humberto Petrelli, amigo de Pereira Filho, e que
 muito colaborou com as obras do Hospital e também cedendo as dependências
do cinema para as assembléias  da Fundação.


  Neste contexto em 31 de janeiro de 1934, liderados por Manuel José Pereira Filho, foi criada uma fundação que se denominouFundação Hospital Sanatório Beléme da qual foi eleito o primeiro presidente. 
   A histórica reunião ocorreu no Cine-Teatro Coliseu que ficava na Voluntários da Pátria, na calçada oposta, em diagonal ao Instituto Pereira Filho no mesmo local onde hoje se encontra o Edifício Coliseu.








   A Sociedade foi formada por vários membros, todos eleitos na assembléia de fundação.
    Além do presidente Manuel Pereira Filho, foram eleitos mais dois vice-presidentes e três presidentes de honra sendo que os indicados foram o então Governador Flores da Cunha, o Arcebispo Dom João Becker e o Prefeito Alberto Bins. Também foram eleitos, secretário, tesoureiro, advogado e  médico.
Os três Presidentes de Honra eleitos na assembléia de fundação da Sociedade


Apresentamos 8 dos 24 Mordomos nomeados pela sociedade



Além da diretoria foram nomeados posteriormente, mais 24 Mordomos ( pessoas de relevantes serviços prestados a instituição). Entre estes, estavam várias figuras do mundo político, industrial, comercial e empresarial. Os diferentes setores da sociedade estavam ali representados o que assegurou um engajamento pleno da população ao projeto.

     Obtidos os recursos, foi adquirida uma área com 172 hectares no bairro Belém Velho. Na época, poucas habitações haviam no local que tinha excelente ventilação e densa arborização, requisitos básicos para os conceitos vigentes na época, no que tange ao tratamento da Tuberculose.
  A Fundação contrata o arquiteto Luiz Ubatuba de Faria para a elaboração do projeto do futuro hospital. Ubatuba era um inovador e buscou um modelo muito utilizado na época pelos americanos e previa uma área de circulação em semicírculo que ligava os seis pavilhões, isso entre outras concepções modernas que foram adicionadas ao projeto.






   No dia 03 de maio de 1934 foi lançada oficialmente a pedra fundamental do grande hospital.




  Dahne Conceição e Comp. Ltda., importante empresa de engenharia da época, ganhou a concorrência e ficou encarregada da construção do hospital.


  A inauguração ocorreu no dia 12 de outubro de 1941 quando da realização, em Porto Alegre, do 2º Congresso Nacional de Tuberculose.
 Na ocasião apenas quatro pavilhões estavam concluídos e as obras se estenderam até 1944, quando então o projeto original foi totalmente concluído.
   A enfermagem foi entregue a Ordem das Irmãs Franciscanas e para tanto, foi projetada e construída uma casa especial para o alojamento das mesmas.
As reuniões do 2º Congresso deTuberculose se relizaram no salão nobre da Faculdade de Medicina na Sarmento Leite









  O Hospital Sanatório Belém foi reconhecido como a maior e melhor instituição para tratamento da Tuberculose existente no Brasil em qualquer época.





  Além de suas funções de atendimento, a instituição foi uma grande escola, tendo formado um sem número de Tisiologistas que prestaram o amparo e o tratamento a milhares de doentes infectados pela Tuberculose

  Para isso foi importante a criação, logo após a inauguração do Centro de Estudos e Investigações Tisiológicas, que funcionava dentro da instituição e era destinado a aprofundar os estudos sobre a prevenção,  investigação e  tratamento da Tuberculose.






  A imagem ao lado mostra o grupo do Centro de Estudos em Tisiologia. Suas reuniões ocorriam semanalmente e nelas eram debatidos e aprofundados os estudos referentes às doenças pulmonares, principalmente a Tuberculose.
    Sentados da E para a D: Elias Buais, Eliseu Paglioli, Manuel Pereira Filho, Aragon Filho e Luiz Felipe Vieira. Em pé na mesma ordem: José Ricaldoni, Borba Lupi, Antonio Del Arroyo, Jorge Fonyat, Athos Granja, Madeira da Rosa, Orlando Seabra e Arthur Pereira Filho

   O advento do tratamento quimioterápico antituberculoso fez cair a mortalidade e diminuiu sobremaneira o tempo de tratamento.
  Neste contexto, o hospital deixa de ser um sanatório e se transforma em um hospital geral, passando a denominar-se “Hospital Parque Belém”.






    Este gigante arquitetônico, que seria capaz de abrigar mais de 400 leitos se utilizada toda a sua área física, encontra-se fechado desde 24 de maio de 2017.
Estas imagens mostram parte dos equipamentos e leitos do Parque Belém na época do fechamento. A medida que o tempo for passando, a obsoletização dos mesmos, será inevitável







    Como médico e cidadão, espero com ansiedade, seja encontrada uma solução que permita sua reabertura, para que esta grande obra, que foi um sonho concretizado por muitos homens e mulheres de nossa cidade, liderados por Pereira Filho, possa continuar a prestar serviços de saúde a nossa tão necessitada população. 

Ronaldo Marcos Bastos







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