Primeira Agência do Banco Pelotense - 1906

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Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil

quarta-feira, 30 de maio de 2018

GASOGÊNIO - Um Pouco da História


     A utilização de combustível gasoso em veículos automotores, remonta ao início do século XX sendo que as primeiras experiências ocorreram nos Estados Unidos pelo emprego de gás obtido pela queima de carvão vegetal. O gás obtido pela combustão de matéria vegetal ou carvão, o chamado “gás pobre”, tinha um baixo poder calorífico  e também era bastante impuro, danificando os motores. Entretanto, a utilização mais intensiva se iniciou na Europa, logo após a eclosão da Iª Guerra Mundial e o consequente racionamento dos combustíveis.




  Nas primeiras experiências foram utilizados invólucros de gás sob baixa pressão muito semelhantes aos balões. 


Automóvel com reservatório de gás tipo "balão" - N Iorque - 1909


A  Invenção do Gasogênio


       Em 1920, o Engenheiro Químico francês Georges Imbert, inventou um aparelho mais compacto – O Gasogênio – que era adaptado aos veículos, promovendo a produção de gás a partir da queima de lenha ou carvão.
Imbert, logo após sua formação em engenharia química, interessou-se em desenvolver uma gasolina sintética, chegando a obter sucesso em suas experiências. Seu combustível foi testado com sucesso em vários veículos. 
Entretanto, o alto custo do produto fez com que abandonasse as experiências e se dedicasse a obtenção de combustível gasoso.
     Com a morte do filho durante a IIª Guerra, passou a sofrer com depressão e alcoolismo. Morreu em Sarre Union na França em 1950. 
   


   Na imagem da esquerda aparece o moinho em Diemeringen na Alemanha, que pertencia a seu tio e no qual fez as primeiras experiências para a obtenção de gás em 1920. Na imagem da direita a casa na Sarre-Union, rue de Bitche na França na qual foi montado o primeiro aparelho de Gasogênio Imbert em 1923.




    
   O gasogênio de Imbert era composto por um reservatório onde era gerado o gás através da combustão de lenha ou carvão. Este gás, entretanto, necessitava ser filtrado adequadamente pois era formado por uma mistura de gases e também de impurezas.


     Georges Imbert patenteou seu invento e montou a "Compagnie Generale des Gazogens Imbert" em 1930. A partir desta data, milhares de veículos passaram a utilizar o gasogênio na Europa.

Ford Modelo A adaptado para Gasogênio Imbert - c.1930

      
   Essa mistura gasosa costuma ser chamada de “gás pobre”, porque dentre esses gases apenas o monóxido de carbono, o hidrogênio e o metano atuam como combustíveis e suas matérias-primas apresentam um baixo poder calorífico, principalmente quando comparados ao teor calorífico dos combustíveis derivados do petróleo, como o óleo diesel e a gasolina.
   
     Além do peso – aproximadamente 100Kg – também representava uma perda de potência nos veículos que, dependendo do equipamento utilizado, poderia chegar a 30%. Além disso, a partida não era imediata, pois demorava em média, 10 minutos para aquecer e locomover o veículo, o que era mais difícil em épocas de baixas temperaturas.

O Gasogênio no Brasil

    Apesar desses inconvenientes ,o Gasogênio foi muito utilizado no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), porque nesse período houve um severo racionamento do uso da gasolina, obrigando os brasileiros a encontrar alternativas de combustíveis.



    Para facilitar o uso do gasogênio em motores à explosão de tratores, ônibus, automóveis e instalações fixas e semi-fixas, no ano de 1940 o presidente Getúlio Vargas baixou um decreto que resultou na instituição da Comissão Nacional do Gasogênio – Decreto-Lei Nº 1.125, de 28 de fevereiro de 1939 - destinada, fundamentalmente, a incrementar a produção, comercialização e utilização desta forma de combustível.

O Presidente Getulio Vargas inspeciona um carro com
 instalação de Gasogênio em 1942
  O decreto de criação desta Comissão foi muito importante para o desenvolvimento da produção, comercialização e utilização do Gasogênio em todo o Brasil.
   
  Além dos membros nomeados diretamente pelo governo, havia um representante do Automóvel Club do Brasil e de dois representantes de transportadores e de fabricantes de gasogênios.
      

  Entre outras determinações, a Comissão regulamentou e incentivou a criação de dezenas de "Cursos de Gasogênio" para garantir a segurança e o bom funcionamento dos aparelhos produzidos, bem como sua adequada manutenção



     Algumas grandes empresas nacionais destacaram-se na produção de aparelhos de gasogênio e, além delas, muitas outras de pequeno porte, surgiram por todo o território nacional.
 
   O tipo de aparelho produzido no Brasil foi também regulamentado pela Comissão Nacional do Gasogênio. Alguns avanços técnicos foram determinados tais como: manômetro - visível no painel - e filtro de segurança. Outras características poderiam ser opcionais e ficariam como diferenciais comerciais entre os fabricantes. Como se observa pelos diagramas, os aparelhos produzidos no Brasil eram bem mais evoluídos tecnologicamente do que aquele originalmente concebido por Imbert


A Indústria de Gasogênios no Brasil
     
    Estima-se que aproximadamente 20.000 aparelhos de gasogênio foram produzidos e instalados no Brasil entre 1940 e 1945.A Ford do Brasil e a GM do Brasil passaram a produzir gasogênios tanto para automóveis como para caminhões e ônibus. Também a Lorenzetti, a Securit, a Laminação Nacional de Metais-LNM e a Gasogênio São Paulo, todas estas localizadas no estado de São Paulo, produziram milhares de aparelhos que foram instalados em diferentes cidades brasileiras.
    Pequenas fábricas também se formaram em centenas de cidades brasileiras e de uma certa forma, contribuíram muito para esta estatística

Gasogênio Ford


   A Ford do Brasil iniciou a fabricação logo nos primeiros meses de 1940 e apresentava como vantagens a assistência técnica por todo o território nacional através de sua grande rede de revendedores e  o tipo retrátil, permitindo o afastamento do equipamento para utilização do porta-malas. Provavelmente, a Ford tenha sido a empresa que mais vendeu aparelhos no Brasil.

Em Porto Alegre, os aparelhos da Ford eram instalados e mantidos principalmente pela Ribeiro Jung que, desde 1931, revendia e fornecia assistência técnica autorizada aos veículos da marca. Atuando até hoje, a Ribeiro Jung é a mais antiga revenda Ford gaúcha e a segunda mais antiga do Brasil.


O Gasogênio da Chevrolet



















   A General Motors do Brasil - GMB iniciou a produção de aparelhos de Gasogênio em dezembro de 1939, A exemplo da Ford, apresentava como vantagem a sua rede de revendas e concessionárias presentes em todos os estados brasileiros.
Em Porto Alegre, a principal revenda Chevrolet era a Companhia Geral de Acessórios - fundada em 1º de Novembro de 1925 - que na época, tinha sua sede na Rua Sete de Setembro nº 50. 


A Securit e o mercado de Gasogênio

    A empresa Tecnogeral, proprietária da marca Securit, fabricante de móveis de aço para  escritórios, resolve entrar no mercado do Gasogênio em 1942 quando já haviam outras empresas atuando no mesmo. 
As principais vantagens que anunciava era a beleza de seu design e a capacidade do tanque de combustão para rodar até 100 Km. Apesar de que suas vendas foram principalmente no estado de São Paulo, a Securit chegou a produzir mais de 4.000 equipamentos,
    Cabe ressaltar que também coube a Securit (1956 a 1961), produzir todas as carrocerias do automóvel Romi Isetta, o primeiro automóvel brasileiro a ser fabricado. Posteriormente, já na década de 60, a Securit forneceu peças para a Simca e para a Willys Overland do Brasil.



O Gasogênio da Lorenzetti

   Empresa fundada em 1923 e que desde logo assumiu a liderança na fabricação de duchas,chuveiros, aquecedores e metais sanitários, decide, ainda em 1941, a investir na produção de gasogênios.
Seus diferenciais eram a solidez da marca e a dupla filtragem do combustível gasoso. Mais de 2.500 equipamentos foram vendidos e instalados entre 1941 e 1945.





























A Laminação Nacional de Metais e a Produção de Gasogênios


     A Laminação Nacional de Metais, uma das várias empresas das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, um dos maiores conglomerados brasileiros da época, com 365 indústrias dos mais diversos segmentos, resolve, por iniciativa pessoal de seu proprietário Francisco Matarazzo Pignatari, o Baby Pignatari, como era mais conhecido em função de sua vida de playboy e seus inúmeros casos amorosos com figuras conhecidas do mundo artístico. Mas apesar disso tudo, era um grande empresário e a entrada no ramo de produção de gasogênios se deveu a uma solicitação pessoal de Getulio Vargas.

    Foram comercializados aproximadamente 3.000 aparelhos cujo principal diferencial era a grande capacidade de seu depósito de combustível que poderia dar uma autonomia de mais de 100 KM ao veículo além dos filtros duplos.



Automóvel adaptado com Gasogênio da LNM, estacionado em frente a sede do
 Automóvel Clube do Brasil no Rio de Janeiro  - 1943














































O Gasogênio no Rio Grande do Sul

    Calcula-se que mais de uma dezena de pequenas fábricas tenham existido. Entre estas, temos o registro de duas que obtiveram relativo sucesso.

    Em Montenegro, Delfino Teodoro Schüller, passa, a partir de 1940, a fabricar o Gasogênio DTS que era muito utilizado em automóveis, ônibus, caminhões e veículos agrícolas.

   Delfino Teodoro Schüller era um competente e conhecido mecânico com oficina em Montenegro-RS. Em 1940 passa a produzir aparelhos de Gasogênio para instalação em todo e qualquer tipo de veículo. No Rio Grande do Sul, entre as pequenas empresas regionais, talvez tenha sido a que mais aparelhos vendeu. Forneceu aparelhos para dezenas de automóveis caminhões e também tratores. Ressalte-se também, que quando as corridas de carreteras começaram a utilizar Gasogênio, Teodoro forneceu os equipamentos para vários pilotos.



    Em Tupanciretã, Dario Kruel – conceituado mecânico da cidade - desenvolveu uma pequena indústria e chegou a produzir muitos equipamentos de excelente qualidade tanto para automóveis quando para veículos maiores. Kruel foi apoiado pela prefeitura da cidade que adquiriu equipamentos para seus veículos.
    O Gasogênio Kruel tinha tres filtros e não dois como a grande maioria dos aparelhos. Esta característica não só melhorava o desempenho como também provocava menos danos aos motores.
O Gasogênio Kruel tinha tres filtros e não dois como a grande maioria dos aparelhos. Esta característica não só melhorava o desempenho como também provocava menos danos aos motores.












Aparelho de Gasogênio antes de ser instalado




      


   A maioria dos aparelhos instalados em Porto Alegre foram fabricados pela Ford e pela General Motors. A Ribeiro Jung e a Companhia Geral de Acessórios - CGA, respectivamente revendas autorizados Ford e Chevrolet, dominaram o mercado da capital na questão da venda e instalação de seus respectivos gasogênios nos veículos. Também a DTS de Montenegro teve alguns clientes na capital.








Antonio Marcos e Seu Gasogênio


     Peço permissão para citar um exemplo bem pessoal. Em 1940, meu tio Antonio Marcos, um mecânico de grande conhecimento e capacidade, construiu e instalou um equipamento de Gasogênio em seu Ford Modelo A -1929. Ele mesmo, em depoimento pessoal, falou sobre tal iniciativa e o quanto foi importante para ele e sua família. Também dele colhi narrativas sobre as dificuldades para aquecimento e partida do motor, principalmente nos dias de inverno, além da perda de potência que ocorria com o Gasogênio. 
     Outra curiosidade relativa a este aparelho, é que muitos materiais para sua construção, foram obtidos através de sucatas que seus amigos, mecânicos da VFRGS, conseguiram para ele. Desta façanha, além das lembranças em nossa memória, resta uma pequena fotografia 6x4cm. que reproduzo aqui, juntamente com sua imagem.






















As Corridas de Automóveis - Carreteras - e o Gasogênio


     Por iniciativa do conhecido piloto paulista Francisco Landi (Chico Landi), o Gasogênio foi introduzido nas corridas de automóveis. 

    As competições estavam proibidas, pelo racionamento, e Landi propôs ao general Santa Rosa, Presidente do Automóvel Clube do Brasil, a possibilidade de uso do Gasogênio.

Sede do Automóvel Clube do Brasil - RJ - 1930


O Automóvel Clube do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, era a entidade que, na época, regulamentava e controlava todas as corridas de automóveis.
Quando as corridas foram proibidas em virtude do racionamento de combustíveis, o conhecido piloto Paulista Francisco (Chico) Landi, iniciou gestões junto ao Automóvel Clube para que se permitissem corridas com a utilização de Gasogênio. A licença foi concedida em março de 1941 e várias corridas passaram a ocorrer, com todos os carros movidos a Gasogênio



Estado de São Paulo - 16 de Setembro de 1943
   Com um Buick 1941 adaptado, Landi foi campeão brasileiro por três anos consecutivos, de 1943 a 1945. Além de piloto vitorioso, era também proprietário da Gasogênio São Paulo, uma das indústrias que se notabilizou na construção e instalação dos aparelhos. Isso fez com que fosse chamado de “Rei do Gasogênio”.

















     No Rio Grande do Sul vários pilotos instalaram Gasogênio em suas carreteras e várias corridas foram organizadas entre 1942 e 1945. Norberto Jung (piloto e fundador da revenda Ford Ribeiro Jung) muito se destacou com seu Ford V-8 equipado com um Gasogênio DTS de Montenegro. Um fato curioso é que mesmo sendo um revendedor Ford, ele corria com um aparelho de outra fábrica.





O Gasogênio em Ônibus, Caminhões e Veículos Agrícolas

     A utilização do gasogênio também foi bastante grande em ônibus, caminhões e veículos agrícolas principalmente em tratores. Certamente o transporte rodoviário não tinha a dimensão dos dias atuais, mas muitas empresas, espalhadas em todo o país, puderam manter suas linhas regulares para transporte de passageiros e cargas, utilizando o gasogênio. Muitos tratores agrícolas tiveram adaptação para Gasogênio principalmente naquelas propriedades de grande extensão.





















Caminhão para grandes cargas adaptado com Gasogênio - Santa Catarina - 1941
Ônibus adaptado com Gasogênio - Imagem tomada em Porto Alegre - 1945













O Gasogênio e os Trens


   Nas estradas de ferro, o gasogênio teve pouca utilização. Este fato se deve, principalmente, porque que a grande maioria das locomotivas ainda eram movidas a vapor naquela época.
      Um dos exemplos foi na Estrada de Ferro Central do Brasil – RJ, onde as locomotivas movidas a Diesel, as chamadas “Litorinas”, foram adaptadas com equipamentos especiais fornecidos pela Laminação Nacional de Metais. Esta experiência foi útil até 1945 quando então o Diesel foi liberado e passou a ser novamente utilizado pelas estradas de ferro de todo o Brasil.












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