VARIG - 90 anos

VARIG - 90 anos
Vista Aérea do Colégio Rosário e Arredores - 1949
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Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil

terça-feira, 25 de março de 2014

Da Velha Casa de Correção ao Presídio Central de Porto Alegre

A Construção
      Quando  Luis Alves de Lima e Silva - O Duque de Caxias - assumiu a presidência do estado em 1842, já encontrou autorizada a construção de uma nova cadeia pública para a  cidade. Esta  autorização  tinha sido dada já em 1831  mas a  Revolução Farroupilha impediu o início das obras. Ainda dentro de seu primeiro governo (1842-1846) Caxias  inicia as obras  que tiveram uma  primeira fase concluída  somente em 1855 com a transferência de aproximadamente 200 presos. A conclusão das obras ocorreu  somente em 1864 mas,  segundo  alguns historiadores, o projeto original jamais chegou a ser totalmente completado. As obras tiveram como construtor João Batista Soares da Silveira e Souza na época, o maior empreiteiro da cidade 

      O Duque de Caxias (E) e João Batista Soares da Silveira e Souza (D)

     Mapa da cidade de Porto Alegre no ano de 1833. Observar que a Casa de Correção ainda não aparecia no registro.
     Neste mapa de 1888 a Casa de Correção já aparece registrada (assinalada pela seta vermelha)

Nesta aquarela de Herrmann Rudolf Wendroth feita em 1852 a Casa de Correção aparece bem à direita na ponta da península.
Fotografia tomada pelos Irmãos Ferrari em 1895 desde as ilhas fronteiras  e na qual a Casa de Correção se salienta bem na ponta da península à direita.

A Progressiva Degradação da Casa de Correção

Com o passar das décadas, aquela que havia sido saudada como a "nova cadeia" da cidade já que a anterior - desativada e demolida em 1841- era insalubre e degradante, foi também vítima do descaso histórico de sucessivos governantes. Os jornais, em sucessivos artigos dos editores, denunciavam diferentes tipos de atrocidades e maus tratos além das péssimas condições prisionais da Casa de Correção.
                                                        - Clique para ampliar -
   Artigo do jornalista Octaviano M. de Oliveira (foto anexa) em seu jornal "Gazetinha" no qual denunciava a situação precária da Casa de Correção na edição de 11 de julho de 1897
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       A reportagem no Correio do Povo em sua edição de 19 de junho de 1947 denuncia a situação da Casa de Correção e declara que o governo estadual teria determinado construção imediata de uma nova penitenciária que viria a ser o atual Presídio Central de Porto Alegre, para nossa tristeza e vergonha, atualmente o pior dos presídios brasileiros .

Na Casa de Correção Alguns Presos Trabalhavam

     Na velha Casa de Correção alguns presos podiam trabalhar nas oficinas que foram montadas ainda no Século XIX. Existiam oficinas de artes gráficas, serralheria, marcenaria, carpintaria, sapataria e alfaiataria. Depois, já no final do Século XIX e início do Século XX, foram inseridos os cursos de padaria e telas de arame.
     A produção destas oficinas tinha como destino o comércio e a indústria locais e do total arrecadado, uma parte ficava com o governo do Estado, uma outra com o "Cofre dos Órfãos do Estado" e uma terceira parte reservada para o custeio do processo do condenado. Nenhum valor era repassado diretamente ao preso, mas se houvesse necessidade comprovada, uma parcela era paga aos seus familiares. Havia uma rigorosa seleção dos que podiam trabalhar nas oficinas. A seleção passava  por  bom comportamento, além da demonstração de vontade e habilidade para a função.
  Nos documentos existentes no Arquivo Público do RGS referentes a antiga Secretaria dos Negócios do Interior e Exterior, consta o registro de que durante a grande greve geral ocorrida em 1919 a padaria da Casa de Correção foi fundamental no suprimento de pão e biscoitos para os portoalegrenses.
     Fotografia aérea tomada por volta de 1952 e na qual aparecem as oficinas que ficavam situadas na parte de trás do terreno nas margens do Guaíba.
                                   Fotografia do interior da oficina de serralheria - 1915
             Nas duas fotografias acima, detalhes das oficinas de Carpintaria - 1916
                                               Detalhe da oficina gráfica - 1920
     Um preso carrega um cesto de pão escoltado por um guarda. A fotografia não tem data determinada mas, suponho,  pode ter  sido tomada na  época  da greve geral  de 1919  isto porque,  não era permitido aos  presos  sairem  para realizar  entregas  em domicílios e ou padarias.

Algumas Vistas da Casa de Correção Através dos Tempos

Duas fotografias, tomadas do Guaíba,  que mostram a Casa de Correção e sua localização. Na fotografia superior -1913-  aparece parte do edifício principal  e as muralhas que separavam o terreno na margem do Guaíba. Observar a chaminé existente no interior e que era de uma pequena usina à carvão que servia para movimentar as oficinas e outros serviços internos da velha cadeia.
Na fotografia inferior -1930-  aparece a recém construída Usina do Gasômetro ainda sem a sua simbólica chaminé que somente seria concluída no final de 1937.
  Fotografia, colorizada eletronicamente, tomada em 1895 por Herr Colembusch mostrando a parte fronteira do edifício principal no terreno que separava o mesmo das muradas fronteiras.
 Fotografia, colorizada eletronicamente,tomada por volta de 1910, mostrando também a parte da frente do edifício principal. A parte do telhado que aparece à direita é do edifício da administração do presídio e que se situava paralelamente aos muros que davam frente para a Rua Riachuelo.
Fotografia de Virgilio Calegari tomada em 1904
   Estas duas fotografias, colorizadas eletronicamente, mostram em detalhes a verdadeira "fortaleza" que era a antiga Casa de Correção. Nos cantos das muradas ficavam as guaritas dos sentinelas (foto abaixo). Na fotografia à direita aparece em detalhes o pesado portão central construído ainda na época da inauguração.
Fotografia da Esquerda - 1950
Fotografia da Direita - 1895
Fotografia de Baixo - 1935
Fotografia mostrando quase toda a extensão da murada fronteira - 1935
 
    Nas duas fotografias acima, ambas colorizadas eletronicamente, aparece o conjunto do edifício principal. Na fotografia superior - 1922 - aparece em primeiro plano o canteiro de obras da construtora do cais do porto que, na época, iniciava as obras. Este canteiro se localizou onde ficava a antiga Praça da Harmonia que foi ocupada para este fim. A rua que aparece cruzando em diagonal é a dos Andradas (rua da Praia).
     A fotografia inferior foi tomada do alto de uma das torres da igreja das Dores em 1915. A rua que aparece cruzando a fotografia é a Riachuelo e observem que, ao fundo, ainda não se encontrava aterrada a área onde seria construída a Usina do Gasômetro.

Incêndio e Demolição

    Na noite do dia 28 de novembro de 1954, por volta das 19:00h os presos atearam fogo no edifício principal da Casa de Correção. Apesar de sua estrutura extremamente forte, o fogo danificou praticamente todo o telhado e toda a estrutura interna dos andares superiores e parte do inferior. Após o sinistro, o presídio funcionou de forma precária até 1961 quando os últimos presos  foram transferidos para outros presídios inclusive para o atual Presídio Central de Porto Alegre que já se encontrava concluído. No dia 26 de abril de 1962 o então governador Leonel de Moura Brizola acionou pessoalmente a chave de detonação de dinamite que iniciou a demolição. Apesar da explosão e do ruído, as paredes ficaram de pé e pouco se notava externamente. Somente  no dia 11 de maio de 1967 a última parede da velha cadeia foi posta abaixo colocando fim a uma existência de 112 anos. Curiosamente, o engenheiro responsável pela demolição foi José Antonio Dib que anos depois viria a ser vereador por várias legislaturas e prefeito da cidade.
      Estas duas fotografias acima foram tomadas na noite do grande incêndio do dia 28 de novembro de 1954. Em ambas se observa a intensidade das chamas que tomavam conta de todo o andar superior e boa parte do inferior.
Aspecto da parte interna em fotografia tomada nos dias que se seguiram ao grande incêndio. Fotografia da Revista do Globo
A mesma Revista do Globo em sua edição do dia 11 de dezembro de 1954 tinha como manchete de reportagem a frase acima. Ela mostra o quanto os portoalegrenses desejavam o fim daquela que  se denominava "Masmorra Medieval"


Vista aérea tomada alguns dias após o incêndio. Nela é possível observar a destruição de quase todo o telhado e do andar superior
 As duas fotografias acima, tomadas em 1967 mostram a Casa de Correção na etapa final de sua demolição. Na fotografia de cima o telhado de todo o edifício principal já tinha sido removido e na foto inferior,  parte das grossas paredes (com aproximadamente 1,5m de largura) estavam sendo demolidas
                                                    - Clique para ampliar -
     A fotografia de cima mostra as últimas paredes a serem demolidas. Pela imagem se observa bem a solidez desta construção imperial. Segundo depoimentos do Eng, José Antonio Dib, que coordenou a demolição, cada tijolo pesava em torno de 11Kg.
    Na fotografia de baixo a manchete do Correio do Povo no dia seguinte ao término do processo de demolição da velha Casa de Correção.
    Vista aérea tomada na década de 80, alguns anos depois da total demolição da Casa de Correção e limpeza do terreno. O alinhamento de rua que aparece na fotografia é hoje a avenida presidente João Goulart que passa em frente a Usina do Gasômetro que também aparece na fotografia

O Presídio Central de Porto Alegre é Muito Pior do Que a Velha "Masmorra Medieval"

Certamente motivo de vergonha para todos os gauchos é saber que todos os setores vinculados ao Judiciário e também organismos internacionais consideram o Presídio Central como o pior do Brasil. Inaugurado para ser uma casa prisional de passagem, pelo descaso e incompetência de sucessivas gestões estaduais, acabou se transformando em um local que não existe similar no resto do Brasil. Certamente uma página vergonhosa de nossa história. As legendas são absolutamente dispensáveis.


Fotografias de Presidiários
     Em 2006 os pesquisadores Pedro e Bia Corrêa do Lago, descobriram uma fantástica coleção de fotografias guardadas pela Princesa Isabel e pelo  Conde D’Eu no castelo em que o casal viveu na França após o exílio em 1889. Mais de 1.000 fotografias estavam guardadas e preservadas em um baú de ferro provavelmente intocado por mais de um século. Nesta coleção havia um álbum denominado “Álbum dos Detentos” e no qual estava mais de uma centena de fotografias de presidiários devidamente identificados pelos nomes, penas e delitos.
     A preciosa coleção gerou um belíssimo livro, publicado em 2008, com o título “Coleção Princesa Isabel – Fotografia do Século XIX”. Deste, retiramos algumas fotografias de detentos e, anexamos a estas, duas de nossa coleção que retratam presidiários da Casa de Correção de Porto Alegre.

Fotografias da Coleção Princesa Isabel

Antonio Moreira Campos
Candido Manoel  Vieira do Amaral
Francisco Pereira Sales
José Pereira Mendes
Pedro Gonçalves Dias
João Monteiro Serrador
 
Verso de duas fotografias de detentos da Coleção Princesa Isabel

Fotografias de Presidiários da Casa de Correção de Porto Alegre

Acima a fotografia do presidiário Pedro Sebastião Brito de autoria do fotógrafo  Luis Guilherme Willisich de Porto Alegre - 1880 aproximadamente.
Fotografia do presidiário Francisco Inácio Miranda em 1892. Não conseguimos apurar a autoria


Nota: as fotografias dos presidiários de Porto Alegre são de minha coleção particular e vieram juntamente com o acervo de João Faria Viana adquirido de sua família em 1980.



4 comentários:

  1. Ronaldo, que maravilha esse teu amor pela história fotográfica de Porto Alegre.

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  2. Lembro que entre alguns presos que escaparam estava o mais famigerado na época: Vava.

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  3. Caro Ronaldo Bastos, estou em processo de pesquisa para um documentário sobre o automóvel no Brasil, como talvez saiba a história sobre o primeiro carro de Porto Alegre, um Dion Bouton, tem uma ligação com a Casa de Correção, já que o primeiro chauffeur foi justamente um detento, o senhor Marini Constanti, seria uma imensa sorte o senhor ter no seu acervo a foto deste cidadão, mas caso não tenha as fotos do presídio já seriam muito bem utilizadas, gostaria de saber se o senhor as disponibilizaria para serem escaneadas em alta resolução e assim fazer parte do documentário?
    Meu contato é rogelsondasilva@gmail.com

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  4. ... Vossa Senhoria merece aplausos e um AGRADECIMENTO muito especial. Quantas vezes discuti com conhecidos sobre a beleza da Cadeia Pública, riram-se de mim... Vossa Senhoria me proporcionar, LAVAR A ALMA e mostrar aos incrédulos, a beleza que era a Cadeia Pública da Volta do Gasômetro. MUITO OBRIGADO... Que Deus lhe ilumine sempre.

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