Hospital Parque Belém

Hospital Parque Belém
Minha foto
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil

domingo, 10 de junho de 2018

Hospital Parque Belém - Ocaso de um Gigante


     




    Há um ano o Hospital Parque Belém fechou suas portas e, passado todo este tempo, não foi encontrada uma solução que viabilizasse a volta de seu pleno funcionamento.
    Nesta postagem não abordaremos as causas que levaram a este desfecho nem tampouco buscaremos apontar responsabilidades, esta não é a razão deste trabalho.

    Vamos  mostrar um pouco da belíssima história que antecedeu a sua construção, alguns dos personagens nela envolvidos, e a saga pessoal e profissional de um dos mais ilustres médicos que por aqui atuou - Manuel José Pereira Filho.





Manuel José Pereira Filho – Médico e Cientista


      Nasceu aqui mesmo em Porto Alegre no dia 10 de fevereiro de 1888. Ainda muito jovem, ingressou na recém fundada Faculdade de Medicina de Porto Alegre – atual medicina da UFRGS – diplomando-se em 1910.


Este prédio ficava na Rua Gal. Vitorino quase na esquina com a Annes Dias, bem próximo da Santa Casa de Misericórdia. A faculdade de Medicina passou a ocupá-lo a partir de 1900 e dele saiu para o prédio da Sarmento leite em 1924. 






       Em 1913 Pereira Filho matriculou-se no Instituto Oswaldo Cruz-RJ, onde cursou a especialização em Microbiologia e Zoologia Médica. Certamente sua inspiração para montar seu instituto veio do contato com o Instituto Oswaldo Cruz e seus ilustres professores.

Nesta imagem da turma de 1913 do Instituto Oswaldo Cruz, Pereira Filho aparece indicado pela seta

























Na oportunidade foi aluno do próprio Oswaldo Cruz, de Carlos Chagas e Belisário Penna, entre outros grandes cientistas que atuavam no Instituto naquela época.


O Instituto Pereira Filho em Porto Alegre

       Retorna para Porto Alegre e já em 1914 inicia a construção de um edifício na esquina da Rua Voluntários da Pátria com a Pinto Bandeira, no qual instalaria seu próprio instituto.
As fotos maiores mostram o edifício onde funcionou o Instituto Pereira Filho a partir de 1916. O prédio foi preservado em sua arquitetura original e a alguns passados, foi restaurado. No andar térreo a exemplo do que sempre ocorreu, funcionam estabelecimentos comerciais. O Instituto ocupava os andares superiores.  Na imagem menor, Manuel José Pereira Filho aparece em seu gabinete de trabalho no andar superior do Instituto. Pela janela, se observa a parte mais alta (tipo lanternim) do antigo Cine-Teatro Coliseu que ficava situado na calçada oposta, em diagonal ao Instituto



       Além da produção industrial de soros, vacinas e análises microbiológicas, o então denominado “Instituto Pereira Filho” transformou-se em uma verdadeira escola de medicina e num estabelecimento que prestava serviços para várias outras instituições, principalmente para a Santa Casa de Misericórdia, da qual jamais cobrou um centavo sequer pelos serviços. 

   Em seu instituto, dezenas de alunos, egressos da Medicina e também dos cursos de Farmácia e Odontologia, realizavam suas Teses de Doutoramento.
      O Dr. Julio Rosa Teixeira, formado em 1931 pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, defendeu a tese "Novas Aplicações do Antivírus de Besredka. A pesquisa focou um tema médico de grande relevância para a época pois Besredka recém havia comunicado  suas descobertas à comunidade científica. O único local existente no RGS onde este tipo de trabalho poderia ser realizado, era o Instituto Pereira Filho






  Os exames para verificação da qualidade da água do Jacuí, Sinos, Caí, Gravataí e do próprio Guaíba eram feitos no Instituto para determinar os melhores pontos para captação pelas Companhias Hidráulicas.

Os laboratórios do Instituto Pereira Filho eram os mais completos do Rio Grande do Sul e nada deviam aos existentes em outros centros . Um orgulho para a cidade e o estado.


Liquor com meningite (campo E)  Brucella abortus bovis (campo D)
Também foi autor de várias descobertas científicas de grande relevância que o transformaram  num cientista respeitado não somente no Brasil, mas também na comunidade científica internacional. Entre seus inúmeros trabalhos,  podemos citar a pesquisa sobre a febre ondulante devido a Brucella abortus bovis, bem como o relato do primeiro caso de Meningite cerebro espinhal  identificado em Porto Alegre.

     Tal foi a importância e a repercussão das pesquisas  do Instituto, que Getulio Vargas, através do Decreto Federal nº 22.486 de 22 de fevereiro de 1933, considerou-o de utilidade pública



Entre as diversas autoridades que visitaram o Instituto Pereira Filho, destaca-se a de Getulio Vargas quando Presidente do Estado em 1930. Impressionado com a magnitude e a qualidade do instituto, deixa uma mensagem: "Deixo consignado o meu sentimento de admiração como brasileiro e de orgulho como rio-grandense".
Em 1951 recebe, e aceita, um convite de Getulio Vargas  para assumir a direção do Serviço Nacional de Tuberculose. Sua gestão dinamizou o Serviço dando novas diretrizes no combate à doença.


    Esteve sempre ligado ao ensino médico tanto que em 1932 foi nomeado Professor Catedrático de Microbiologia da Faculdade de Medicina de Porto Alegre.
      O combate a Tuberculose sempre foi uma de suas maiores atenções tanto que com seu decisivo apoio como diretor do Serviço Nacional de Tuberculose, foi construído um pavilhão dentro do Complexo da Santa Casa, especialmente para o tratamento de doenças pulmonares. Este pavilhão, inaugurado em 1965 - seis anos após seu falecimento - é hoje um dos maiores centros de transplantes e tratamento para doenças pulmonares da América Latina – O Pavilhão Pereira Filho.

O Pavilhão Pereira Filho no Complexo Hospitalar
da Santa Casa de Porto Alegre
Visita ao então Governador Ernesto
Dornelles quando de sua nomeação
como Diretor do Serviço Nacional
de Tuberculose em  1951



O Hospital Sanatório Belém

     As primeiras quatro décadas do Século XX foram marcadas pelo avanço da mortalidade por Tuberculose no Brasil. Nas grandes cidades, 10% dos óbitos eram causados pela doença. Raras eram as famílias que não tinham algum de seus membros afetados pela doença.

O proprietário do Coliseu era Humberto Petrelli, amigo de Pereira Filho, e que
 muito colaborou com as obras do Hospital e também cedendo as dependências
do cinema para as assembléias  da Fundação.


  Neste contexto em 31 de janeiro de 1934, liderados por Manuel José Pereira Filho, foi criada uma fundação que se denominouFundação Hospital Sanatório Beléme da qual foi eleito o primeiro presidente. 
   A histórica reunião ocorreu no Cine-Teatro Coliseu que ficava na Voluntários da Pátria, na calçada oposta, em diagonal ao Instituto Pereira Filho no mesmo local onde hoje se encontra o Edifício Coliseu.








   A Sociedade foi formada por vários membros, todos eleitos na assembléia de fundação.
    Além do presidente Manuel Pereira Filho, foram eleitos mais dois vice-presidentes e três presidentes de honra sendo que os indicados foram o então Governador Flores da Cunha, o Arcebispo Dom João Becker e o Prefeito Alberto Bins. Também foram eleitos, secretário, tesoureiro, advogado e  médico.
Os três Presidentes de Honra eleitos na assembléia de fundação da Sociedade


Apresentamos 8 dos 24 Mordomos nomeados pela sociedade



Além da diretoria foram nomeados posteriormente, mais 24 Mordomos ( pessoas de relevantes serviços prestados a instituição). Entre estes, estavam várias figuras do mundo político, industrial, comercial e empresarial. Os diferentes setores da sociedade estavam ali representados o que assegurou um engajamento pleno da população ao projeto.

     Obtidos os recursos, foi adquirida uma área com 172 hectares no bairro Belém Velho. Na época, poucas habitações haviam no local que tinha excelente ventilação e densa arborização, requisitos básicos para os conceitos vigentes na época, no que tange ao tratamento da Tuberculose.
  A Fundação contrata o arquiteto Luiz Ubatuba de Faria para a elaboração do projeto do futuro hospital. Ubatuba era um inovador e buscou um modelo muito utilizado na época pelos americanos e previa uma área de circulação em semicírculo que ligava os seis pavilhões, isso entre outras concepções modernas que foram adicionadas ao projeto.






   No dia 03 de maio de 1934 foi lançada oficialmente a pedra fundamental do grande hospital.




  Dahne Conceição e Comp. Ltda., importante empresa de engenharia da época, ganhou a concorrência e ficou encarregada da construção do hospital.


  A inauguração ocorreu no dia 12 de outubro de 1941 quando da realização, em Porto Alegre, do 2º Congresso Nacional de Tuberculose.
 Na ocasião apenas quatro pavilhões estavam concluídos e as obras se estenderam até 1944, quando então o projeto original foi totalmente concluído.
   A enfermagem foi entregue a Ordem das Irmãs Franciscanas e para tanto, foi projetada e construída uma casa especial para o alojamento das mesmas.
As reuniões do 2º Congresso deTuberculose se relizaram no salão nobre da Faculdade de Medicina na Sarmento Leite









  O Hospital Sanatório Belém foi reconhecido como a maior e melhor instituição para tratamento da Tuberculose existente no Brasil em qualquer época.





  Além de suas funções de atendimento, a instituição foi uma grande escola, tendo formado um sem número de Tisiologistas que prestaram o amparo e o tratamento a milhares de doentes infectados pela Tuberculose

  Para isso foi importante a criação, logo após a inauguração do Centro de Estudos e Investigações Tisiológicas, que funcionava dentro da instituição e era destinado a aprofundar os estudos sobre a prevenção,  investigação e  tratamento da Tuberculose.






  A imagem ao lado mostra o grupo do Centro de Estudos em Tisiologia. Suas reuniões ocorriam semanalmente e nelas eram debatidos e aprofundados os estudos referentes às doenças pulmonares, principalmente a Tuberculose.
    Sentados da E para a D: Elias Buais, Eliseu Paglioli, Manuel Pereira Filho, Aragon Filho e Luiz Felipe Vieira. Em pé na mesma ordem: José Ricaldoni, Borba Lupi, Antonio Del Arroyo, Jorge Fonyat, Athos Granja, Madeira da Rosa, Orlando Seabra e Arthur Pereira Filho

   O advento do tratamento quimioterápico antituberculoso fez cair a mortalidade e diminuiu sobremaneira o tempo de tratamento.
  Neste contexto, o hospital deixa de ser um sanatório e se transforma em um hospital geral, passando a denominar-se “Hospital Parque Belém”.






    Este gigante arquitetônico, que seria capaz de abrigar mais de 400 leitos se utilizada toda a sua área física, encontra-se fechado desde 24 de maio de 2017.
Estas imagens mostram parte dos equipamentos e leitos do Parque Belém na época do fechamento. A medida que o tempo for passando, a obsoletização dos mesmos, será inevitável







    Como médico e cidadão, espero com ansiedade, seja encontrada uma solução que permita sua reabertura, para que esta grande obra, que foi um sonho concretizado por muitos homens e mulheres de nossa cidade, liderados por Pereira Filho, possa continuar a prestar serviços de saúde a nossa tão necessitada população. 

Ronaldo Marcos Bastos







quarta-feira, 30 de maio de 2018

GASOGÊNIO - Um Pouco da História


     A utilização de combustível gasoso em veículos automotores, remonta ao início do século XX sendo que as primeiras experiências ocorreram nos Estados Unidos pelo emprego de gás obtido pela queima de carvão vegetal. O gás obtido pela combustão de matéria vegetal ou carvão, o chamado “gás pobre”, tinha um baixo poder calorífico  e também era bastante impuro, danificando os motores. Entretanto, a utilização mais intensiva se iniciou na Europa, logo após a eclosão da Iª Guerra Mundial e o consequente racionamento dos combustíveis.




  Nas primeiras experiências foram utilizados invólucros de gás sob baixa pressão muito semelhantes aos balões. 


Automóvel com reservatório de gás tipo "balão" - N Iorque - 1909


A  Invenção do Gasogênio


       Em 1920, o Engenheiro Químico francês Georges Imbert, inventou um aparelho mais compacto – O Gasogênio – que era adaptado aos veículos, promovendo a produção de gás a partir da queima de lenha ou carvão.
Imbert, logo após sua formação em engenharia química, interessou-se em desenvolver uma gasolina sintética, chegando a obter sucesso em suas experiências. Seu combustível foi testado com sucesso em vários veículos. 
Entretanto, o alto custo do produto fez com que abandonasse as experiências e se dedicasse a obtenção de combustível gasoso.
     Com a morte do filho durante a IIª Guerra, passou a sofrer com depressão e alcoolismo. Morreu em Sarre Union na França em 1950. 
   


   Na imagem da esquerda aparece o moinho em Diemeringen na Alemanha, que pertencia a seu tio e no qual fez as primeiras experiências para a obtenção de gás em 1920. Na imagem da direita a casa na Sarre-Union, rue de Bitche na França na qual foi montado o primeiro aparelho de Gasogênio Imbert em 1923.




    
   O gasogênio de Imbert era composto por um reservatório onde era gerado o gás através da combustão de lenha ou carvão. Este gás, entretanto, necessitava ser filtrado adequadamente pois era formado por uma mistura de gases e também de impurezas.


     Georges Imbert patenteou seu invento e montou a "Compagnie Generale des Gazogens Imbert" em 1930. A partir desta data, milhares de veículos passaram a utilizar o gasogênio na Europa.

Ford Modelo A adaptado para Gasogênio Imbert - c.1930

      
   Essa mistura gasosa costuma ser chamada de “gás pobre”, porque dentre esses gases apenas o monóxido de carbono, o hidrogênio e o metano atuam como combustíveis e suas matérias-primas apresentam um baixo poder calorífico, principalmente quando comparados ao teor calorífico dos combustíveis derivados do petróleo, como o óleo diesel e a gasolina.
   
     Além do peso – aproximadamente 100Kg – também representava uma perda de potência nos veículos que, dependendo do equipamento utilizado, poderia chegar a 30%. Além disso, a partida não era imediata, pois demorava em média, 10 minutos para aquecer e locomover o veículo, o que era mais difícil em épocas de baixas temperaturas.

O Gasogênio no Brasil

    Apesar desses inconvenientes ,o Gasogênio foi muito utilizado no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), porque nesse período houve um severo racionamento do uso da gasolina, obrigando os brasileiros a encontrar alternativas de combustíveis.



    Para facilitar o uso do gasogênio em motores à explosão de tratores, ônibus, automóveis e instalações fixas e semi-fixas, no ano de 1940 o presidente Getúlio Vargas baixou um decreto que resultou na instituição da Comissão Nacional do Gasogênio – Decreto-Lei Nº 1.125, de 28 de fevereiro de 1939 - destinada, fundamentalmente, a incrementar a produção, comercialização e utilização desta forma de combustível.

O Presidente Getulio Vargas inspeciona um carro com
 instalação de Gasogênio em 1942
  O decreto de criação desta Comissão foi muito importante para o desenvolvimento da produção, comercialização e utilização do Gasogênio em todo o Brasil.
   
  Além dos membros nomeados diretamente pelo governo, havia um representante do Automóvel Club do Brasil e de dois representantes de transportadores e de fabricantes de gasogênios.
      

  Entre outras determinações, a Comissão regulamentou e incentivou a criação de dezenas de "Cursos de Gasogênio" para garantir a segurança e o bom funcionamento dos aparelhos produzidos, bem como sua adequada manutenção



     Algumas grandes empresas nacionais destacaram-se na produção de aparelhos de gasogênio e, além delas, muitas outras de pequeno porte, surgiram por todo o território nacional.
 
   O tipo de aparelho produzido no Brasil foi também regulamentado pela Comissão Nacional do Gasogênio. Alguns avanços técnicos foram determinados tais como: manômetro - visível no painel - e filtro de segurança. Outras características poderiam ser opcionais e ficariam como diferenciais comerciais entre os fabricantes. Como se observa pelos diagramas, os aparelhos produzidos no Brasil eram bem mais evoluídos tecnologicamente do que aquele originalmente concebido por Imbert


A Indústria de Gasogênios no Brasil
     
    Estima-se que aproximadamente 20.000 aparelhos de gasogênio foram produzidos e instalados no Brasil entre 1940 e 1945.A Ford do Brasil e a GM do Brasil passaram a produzir gasogênios tanto para automóveis como para caminhões e ônibus. Também a Lorenzetti, a Securit, a Laminação Nacional de Metais-LNM e a Gasogênio São Paulo, todas estas localizadas no estado de São Paulo, produziram milhares de aparelhos que foram instalados em diferentes cidades brasileiras.
    Pequenas fábricas também se formaram em centenas de cidades brasileiras e de uma certa forma, contribuíram muito para esta estatística

Gasogênio Ford


   A Ford do Brasil iniciou a fabricação logo nos primeiros meses de 1940 e apresentava como vantagens a assistência técnica por todo o território nacional através de sua grande rede de revendedores e  o tipo retrátil, permitindo o afastamento do equipamento para utilização do porta-malas. Provavelmente, a Ford tenha sido a empresa que mais vendeu aparelhos no Brasil.

Em Porto Alegre, os aparelhos da Ford eram instalados e mantidos principalmente pela Ribeiro Jung que, desde 1931, revendia e fornecia assistência técnica autorizada aos veículos da marca. Atuando até hoje, a Ribeiro Jung é a mais antiga revenda Ford gaúcha e a segunda mais antiga do Brasil.


O Gasogênio da Chevrolet



















   A General Motors do Brasil - GMB iniciou a produção de aparelhos de Gasogênio em dezembro de 1939, A exemplo da Ford, apresentava como vantagem a sua rede de revendas e concessionárias presentes em todos os estados brasileiros.
Em Porto Alegre, a principal revenda Chevrolet era a Companhia Geral de Acessórios - fundada em 1º de Novembro de 1925 - que na época, tinha sua sede na Rua Sete de Setembro nº 50. 


A Securit e o mercado de Gasogênio

    A empresa Tecnogeral, proprietária da marca Securit, fabricante de móveis de aço para  escritórios, resolve entrar no mercado do Gasogênio em 1942 quando já haviam outras empresas atuando no mesmo. 
As principais vantagens que anunciava era a beleza de seu design e a capacidade do tanque de combustão para rodar até 100 Km. Apesar de que suas vendas foram principalmente no estado de São Paulo, a Securit chegou a produzir mais de 4.000 equipamentos,
    Cabe ressaltar que também coube a Securit (1956 a 1961), produzir todas as carrocerias do automóvel Romi Isetta, o primeiro automóvel brasileiro a ser fabricado. Posteriormente, já na década de 60, a Securit forneceu peças para a Simca e para a Willys Overland do Brasil.



O Gasogênio da Lorenzetti

   Empresa fundada em 1923 e que desde logo assumiu a liderança na fabricação de duchas,chuveiros, aquecedores e metais sanitários, decide, ainda em 1941, a investir na produção de gasogênios.
Seus diferenciais eram a solidez da marca e a dupla filtragem do combustível gasoso. Mais de 2.500 equipamentos foram vendidos e instalados entre 1941 e 1945.





























A Laminação Nacional de Metais e a Produção de Gasogênios


     A Laminação Nacional de Metais, uma das várias empresas das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, um dos maiores conglomerados brasileiros da época, com 365 indústrias dos mais diversos segmentos, resolve, por iniciativa pessoal de seu proprietário Francisco Matarazzo Pignatari, o Baby Pignatari, como era mais conhecido em função de sua vida de playboy e seus inúmeros casos amorosos com figuras conhecidas do mundo artístico. Mas apesar disso tudo, era um grande empresário e a entrada no ramo de produção de gasogênios se deveu a uma solicitação pessoal de Getulio Vargas.

    Foram comercializados aproximadamente 3.000 aparelhos cujo principal diferencial era a grande capacidade de seu depósito de combustível que poderia dar uma autonomia de mais de 100 KM ao veículo além dos filtros duplos.



Automóvel adaptado com Gasogênio da LNM, estacionado em frente a sede do
 Automóvel Clube do Brasil no Rio de Janeiro  - 1943














































O Gasogênio no Rio Grande do Sul

    Calcula-se que mais de uma dezena de pequenas fábricas tenham existido. Entre estas, temos o registro de duas que obtiveram relativo sucesso.

    Em Montenegro, Delfino Teodoro Schüller, passa, a partir de 1940, a fabricar o Gasogênio DTS que era muito utilizado em automóveis, ônibus, caminhões e veículos agrícolas.

   Delfino Teodoro Schüller era um competente e conhecido mecânico com oficina em Montenegro-RS. Em 1940 passa a produzir aparelhos de Gasogênio para instalação em todo e qualquer tipo de veículo. No Rio Grande do Sul, entre as pequenas empresas regionais, talvez tenha sido a que mais aparelhos vendeu. Forneceu aparelhos para dezenas de automóveis caminhões e também tratores. Ressalte-se também, que quando as corridas de carreteras começaram a utilizar Gasogênio, Teodoro forneceu os equipamentos para vários pilotos.



    Em Tupanciretã, Dario Kruel – conceituado mecânico da cidade - desenvolveu uma pequena indústria e chegou a produzir muitos equipamentos de excelente qualidade tanto para automóveis quando para veículos maiores. Kruel foi apoiado pela prefeitura da cidade que adquiriu equipamentos para seus veículos.
    O Gasogênio Kruel tinha tres filtros e não dois como a grande maioria dos aparelhos. Esta característica não só melhorava o desempenho como também provocava menos danos aos motores.
O Gasogênio Kruel tinha tres filtros e não dois como a grande maioria dos aparelhos. Esta característica não só melhorava o desempenho como também provocava menos danos aos motores.












Aparelho de Gasogênio antes de ser instalado




      


   A maioria dos aparelhos instalados em Porto Alegre foram fabricados pela Ford e pela General Motors. A Ribeiro Jung e a Companhia Geral de Acessórios - CGA, respectivamente revendas autorizados Ford e Chevrolet, dominaram o mercado da capital na questão da venda e instalação de seus respectivos gasogênios nos veículos. Também a DTS de Montenegro teve alguns clientes na capital.








Antonio Marcos e Seu Gasogênio


     Peço permissão para citar um exemplo bem pessoal. Em 1940, meu tio Antonio Marcos, um mecânico de grande conhecimento e capacidade, construiu e instalou um equipamento de Gasogênio em seu Ford Modelo A -1929. Ele mesmo, em depoimento pessoal, falou sobre tal iniciativa e o quanto foi importante para ele e sua família. Também dele colhi narrativas sobre as dificuldades para aquecimento e partida do motor, principalmente nos dias de inverno, além da perda de potência que ocorria com o Gasogênio. 
     Outra curiosidade relativa a este aparelho, é que muitos materiais para sua construção, foram obtidos através de sucatas que seus amigos, mecânicos da VFRGS, conseguiram para ele. Desta façanha, além das lembranças em nossa memória, resta uma pequena fotografia 6x4cm. que reproduzo aqui, juntamente com sua imagem.






















As Corridas de Automóveis - Carreteras - e o Gasogênio


     Por iniciativa do conhecido piloto paulista Francisco Landi (Chico Landi), o Gasogênio foi introduzido nas corridas de automóveis. 

    As competições estavam proibidas, pelo racionamento, e Landi propôs ao general Santa Rosa, Presidente do Automóvel Clube do Brasil, a possibilidade de uso do Gasogênio.

Sede do Automóvel Clube do Brasil - RJ - 1930


O Automóvel Clube do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, era a entidade que, na época, regulamentava e controlava todas as corridas de automóveis.
Quando as corridas foram proibidas em virtude do racionamento de combustíveis, o conhecido piloto Paulista Francisco (Chico) Landi, iniciou gestões junto ao Automóvel Clube para que se permitissem corridas com a utilização de Gasogênio. A licença foi concedida em março de 1941 e várias corridas passaram a ocorrer, com todos os carros movidos a Gasogênio



Estado de São Paulo - 16 de Setembro de 1943
   Com um Buick 1941 adaptado, Landi foi campeão brasileiro por três anos consecutivos, de 1943 a 1945. Além de piloto vitorioso, era também proprietário da Gasogênio São Paulo, uma das indústrias que se notabilizou na construção e instalação dos aparelhos. Isso fez com que fosse chamado de “Rei do Gasogênio”.

















     No Rio Grande do Sul vários pilotos instalaram Gasogênio em suas carreteras e várias corridas foram organizadas entre 1942 e 1945. Norberto Jung (piloto e fundador da revenda Ford Ribeiro Jung) muito se destacou com seu Ford V-8 equipado com um Gasogênio DTS de Montenegro. Um fato curioso é que mesmo sendo um revendedor Ford, ele corria com um aparelho de outra fábrica.





O Gasogênio em Ônibus, Caminhões e Veículos Agrícolas

     A utilização do gasogênio também foi bastante grande em ônibus, caminhões e veículos agrícolas principalmente em tratores. Certamente o transporte rodoviário não tinha a dimensão dos dias atuais, mas muitas empresas, espalhadas em todo o país, puderam manter suas linhas regulares para transporte de passageiros e cargas, utilizando o gasogênio. Muitos tratores agrícolas tiveram adaptação para Gasogênio principalmente naquelas propriedades de grande extensão.





















Caminhão para grandes cargas adaptado com Gasogênio - Santa Catarina - 1941
Ônibus adaptado com Gasogênio - Imagem tomada em Porto Alegre - 1945













O Gasogênio e os Trens


   Nas estradas de ferro, o gasogênio teve pouca utilização. Este fato se deve, principalmente, porque que a grande maioria das locomotivas ainda eram movidas a vapor naquela época.
      Um dos exemplos foi na Estrada de Ferro Central do Brasil – RJ, onde as locomotivas movidas a Diesel, as chamadas “Litorinas”, foram adaptadas com equipamentos especiais fornecidos pela Laminação Nacional de Metais. Esta experiência foi útil até 1945 quando então o Diesel foi liberado e passou a ser novamente utilizado pelas estradas de ferro de todo o Brasil.